Alunos provam “O Gosto da Guerra”
em palestra de José Hamilton Ribeiro

Em palestra na Uniara, jornalista falou de forma bem-humorada
sobre suas experiências na cobertura da Guerra do Vietnã

Carlos André de Souza

Em palestra realizada na última quinta-feira, no auditório José Araújo Quirino dos Santos, da Uniara, José Hamilton Ribeiro passou aos alunos do curso de jornalismo um pouco das experiências vividas durante a cobertura da Guerra do Vietnã. O jornalista, que completa 50 anos de carreira, está relançando seu livro “O Gosto da Guerra”, pela editora Objetiva, que havia sido esgotado há 20 anos. Autor de oito livros, vencedor de sete Prêmios Esso, e há duas décadas no comando do programa agrícola Globo Rural, José Hamilton falou sobre seus dramas, aprendizados e situações inusitadas que presenciou no front de batalha.
O bom-humor do jornalista já ficou claro em suas primeiras palavras, ao informar a renovação de contrato da jornalista Fátima Bernardes com a Rede Globo. “Vocês que são jornalistas, devem gostar de notícias quentes e essa é uma”, diz sorrindo.
De volta ao tema principal, José Hamilton iniciou sua palestra falando sobre o modo como foi convidado para a cobertura da Guerra do Vietnã em 1968. Trabalhava para a Revista Realidade, na época a principal revista brasileira. Como aquele conflito era a notícia do momento, os editores da revista decidiram mandar um repórter ao local e ele foi a primeira opção. Pediu 24 horas para pensar e decidiu aceitar o desafio.
Mas o que leva um profissional de jornalismo a aceitar o risco tão grande existente na cobertura de uma guerra? No caso de José Hamilton Ribeiro, cinco motivos o levaram a tomar a decisão: um pouco de vaidade, espírito de aventura, ambição profissional, “uma pitada de falta de juízo” e o impulso psicológico do jornalista que o leva a querer registrar o momento para a história.
Para ele, não é possível ser imparcial na cobertura de uma guerra. “Pega-se como exemplo um jornalista que cobre uma guerra em que seu país participa e ele sempre acabará sendo parcial ao dar as notícias. Se não for, pode até mesmo ser considerado um espião e conseqüentemente pode ser banido da profissão, e, muitas vezes, até mesmo tendo que mudar de país. Como o Brasil não fazia parte da Guerra, é do lado psicológico do jornalista focar os fatos pelo lado do mais fraco. A maioria dos correspondentes fez isso por se tratar de um país tão pobre contra a maior potência do mundo”, explica o palestrante.

Histórias da Guerra

Antes de seguir viagem para Saigon, capital do Vietnã, José Hamilton recebeu uma pequena lista de produtos básicos que deveria levar, como cantil e pastilhas de sal para o caso de se perder na selva. Mas chegando lá, foi informado que faltavam dois itens em sua mala: camisinhas e uma pistola de bolso. As camisinhas ainda eram um tabu naquela época e o repórter estranhou a necessidade do preservativo num local como aquele. Logo percebeu que aquilo era usado para evitar que as cédulas de dinheiro e outros pequenos objetos que levava nos bolsos se molhassem. A utilidade da pistola de bolso seria ainda mais inesperada. Os jornalistas acompanhavam as situações junto com uma unidade do exército. Se a unidade fosse pega pelo inimigo, o ritual seria o interrogatório seguido de tortura e morte. Para evitar tamanho sofrimento, a pistola seria usada para o suicídio. “Mas essa eu não comprei!”, brinca.
Os casos de espionagem eram muito comuns durante o conflito. José Hamilton lembra uma ocasião em que a agência de notícias Associated Press começou a pagar 15 dólares por informações que poderiam ser aproveitadas. Dezenas de vietnamitas apareciam com notícias, mas um grupo ganhou a credibilidade por sempre apresentar informações que procediam, muitas vezes até com fotos. A agência passou a dar grandes furos nos concorrentes. Quando o conflito terminou, os informantes foram vistos em jipes inimigos, ou seja, eram todos espiões passando notícias falsas para a agência. Outra situação parecida aconteceu com a revista americana Time, que havia instalado um escritório no local e nomeado um chefe vietnamita. Com o final da guerra, este admitiu ser um coronel do exército inimigo, infiltrado na imprensa americana.
O projeto da cobertura era ficar vinte dias de cada lado no front e fazer um balanço sobre a situação. Por conta do alto custo que havia para manter profissionais no Vietnã, um fotógrafo foi contratado no local para acompanhar o jornalista brasileiro. Kei Shimamoto, um japonês que aceitou o trabalho, passou todos os dias ao lado de José Hamilton Ribeiro. A estada do jornalista brasileiro deveria ser até o dia 19 de março, mas o fotógrafo o convenceu a ficar até o dia seguinte, pois estavam programadas duas operações altamente fotogênicas e o jornalista poderia voltar para o Brasil com um material ainda melhor. Uma das operações seria um ataque aéreo e a outra seria a inspeção de uma aldeia que era suspeita de ser uma base inimiga. No dia seguinte, a unidade americana que ele acompanhava foi visitar a aldeia e foi bem recebida pelos moradores. Inicialmente não havia nenhum sinal de que aquele grupo fosse contra os EUA, mas um avião que sobrevoava o local percebeu a existência de um canhão antiaéreo escondido e mandou que o grupo voltasse. Mais tarde eles voltaram ao local, mas não havia sinal de nenhuma pessoa. “Havia um silêncio no ar”, descreve José Hamilton. Sem saber que o território estava minado, a companhia começou a caminhar em direção à aldeia evacuada e, em determinado momento do trajeto, começaram a explodir os artefatos. Um deles estourou na frente do jornalista. “Eu escutei um estampido poderoso e quando a fumaça acabou eu só via pessoas me fotografando”, conta. Uma perna havia sido mutilada e a outra estava sangrando muito. Havia apenas três enfermeiros, todos ocupados com outros mutilados, e o repórter estava perdendo muito sangue. Um oficial do exército o ajudou a estancar o sangue com um cinto, enquanto o enfermeiro não chegava para atendê-lo.
No hospital, onde ficou por 11 dias sem nenhum brasileiro por perto, José Hamilton recebeu a solidariedade do fotógrafo japonês, que se sentia culpado pelo triste episódio. “Ele ficou o tempo todo no hospital, bebendo e chorando muito”, relata o jornalista.
Ao voltar para o Brasil, José Hamilton Ribeiro se tornou editor-chefe da Realidade e havia uma vaga para um fotógrafo. Lembrou de Shimamoto e o convidou através de uma carta. O japonês aceitou o cargo, mas disse que antes precisaria concluir um outro trabalho que estava em andamento. Neste trabalho, o fotógrafo estava em um helicóptero que acabou atingido por uma bateria antiaérea. “Não houve nem um túmulo para o Shimamoto”, diz o jornalista, que depois de décadas do incidente se emocionou ao ver, no Brasil, um catálogo de fotógrafos da guerra que em uma das páginas trazia a fotografia do amigo japonês.

Superação

Quando estava no hospital, José Hamilton Ribeiro tinha como principal drama o medo de morrer. Quando percebeu que não corria mais este risco, sua preocupação passou a ser com a possibilidade de interrupção da carreira. O repórter saiu do Vietnã e foi para os Estados Unidos, onde receberia uma prótese. Naquele país, o assassinato de Robert Kennedy acabou levando o jornalista a cobrir o fato. Segundo ele, essa atitude o fez muito bem psicologicamente. Mas ainda ficava um receio de ser rotulado como um repórter de uma matéria só, coisa que não aconteceu, pois foi recebido como um herói ao retornar para o Brasil.

Geração seguinte

Trinta anos depois de sua experiência no Vietnã, José Hamilton teve em sua família uma situação muito parecida com a qual ele viveu. Seu genro, o repórter Sérgio Dávila, acabou recebendo um convite da Folha de São Paulo para cobrir a Guerra do Iraque. O principal conselho foi que deveria aproveitar a oportunidade, mas Dávila acabou revelando que, independente da opinião do sogro, ele já havia tomado a decisão de ir. O genro passou 35 dias no Iraque, fazendo a cobertura do conflito e, no próximo mês, retornará ao país para cobrir o julgamento de Saddam Hussein.

“Viver é perigoso”

“Eu não me arrependi de ir para a guerra”, afirma com convicção o jornalista. Disse que se não houvesse a sua limitação física e recebesse outro convite, com certeza aceitaria. “Eu vi mais gente morta em São Paulo do que no Vietnã”, completa José Hamilton, que teve como uma de suas primeiras coberturas da carreira um grande acidente de trem ocorrido na capital paulista. “Viver é perigoso!”, comenta. Mas o editor do Globo Rural se diz satisfeito com o seu trabalho atual, pois lhe permite praticar a atividade que gosta, ajustado às suas condições. Lembrou-se de uma pergunta que lhe fizeram há muitos anos e que ficou marcada em sua memória: “É muito difícil ser repórter com uma perna só?” A resposta descreve a personalidade bem-humorada do jornalista: “É mais difícil do que com duas, e mais fácil do que com quatro”.

Empolgação

Para Liliane Carneiro, estudante de jornalismo da Uniara, foi possível absorver bastante experiência do jornalista na palestra. “Ele contou como ser um jornalista na guerra de uma maneira simples que dá mais vontade de ser jornalista, de concluir o curso e trabalhar logo na área”, conclui empolgada.
A aluna Ana Carolina Lima também achou as declarações muito proveitosas. “Ele é uma prova de que para ser jornalista deve ser apaixonado pela profissão e aceitar desafios. Senti que estou estudando para a profissão certa”, completa.
Grande fã do trabalho de José Hamilton Ribeiro, a coordenadora do curso de jornalismo da Uniara, Elivanete Barbi, se diz suspeita para falar sobre o jornalista. “Ele tem um texto muito bom, então, ao falar, ele passa a qualidade do seu texto, além do bom humor. E ele fala de uma coisa que eu prezo muito, que é da alma humana, do homem em todas as complexidades e isso é muito jornalístico para mim”, comenta a professora, que ainda conclui: “Este é um grande momento do curso. O José Hamilton é um dos maiores expoentes do jornalismo brasileiro e tê-lo aqui é uma grande satisfação. Estou muito contente por proporcionar isso para mim e para os alunos”.

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Reportagem produzida em 2005 para o curso de jornalismo da Uniara

 

O jornalista José Hamilton Ribeiro durante palestra na Uniara